Cadeira de Balanço Pito
- Januário Bezerra
- Jun 10, 2025
- 2 min read
Updated: Sep 30, 2025

Enquanto fazia a Pito, tinha muito claro a imagem de meu avô sentado na porta de casa, num banco baixo, preparando seu cigarro com calma. Havia silêncio. Um silêncio só atravessado por breves saudações de quem passava na rua. Era um tempo esticado, onde o gesto de enrolar o fumo se confundia com a contemplação da vida que passava, um momento de ritual.
Essa imagem é o ponto de partida da cadeira Pito.

O assento baixo da Cadeira Pito convida o corpo a se aproximar da terra. Não se trata apenas de uma escolha formal ou ergonômica, mas de uma postura que nos devolve a uma escala mais íntima e terrestre, quase cerimonial. O assento baixo reforça um vinculo simbólico com os hábitos rurais de sentar próximo a terra, evocando uma sensação de enraizamento ao sentar, é preciso se curvar, aceitar a gravidade, e com ela, um tempo outro, um tempo mais próximo do chão, do silêncio e da respiração.

O movimento de balanço exige entrega. Um corpo que hesita antes de confiar, como quem testa o chão antes de pisar com os dois pés. Aos poucos, no embalo, o corpo entende os limites, reconhece os ritmos e passa a dialogar com a cadeira. É um início vacilante, mas que, ao encontrar o fluxo, abre espaço para um estado de presença profunda. O corpo, moldado pela repetição do balanço, atravessa camadas de si mesmo até alcançar um ponto de suspensão, quase transe, uma dança sutil entre tensão e repouso.
Os desenhos que compõem alguns dos meus trabalhos fazem parte de um imaginário das paisagens da minha infância na roça. Crescer em uma região de mares de morros coloca as paisagens em perspectiva, sempre observadas a partir de um outro plano.
Esses traços desenham-se como os contornos sinuosos das plantações, das lavouras e dos animais que vão roçam os morros, formando um desenho da interação humana que vai se inserindo na paisagem natural
A Cadeira Pito incorpora a lógica estrutural dos currais em uma linguagem contemporânea. Suas pranchas à força, à estabilidade e à durabilidade dessas construções rurais, onde cada elemento tem uma função clara e resistente. Essa estrutura, ao ser reinterpretada no mobiliário, cria uma peça que equilibra funcionalidade e presença estética. O desenho simples, mas firme, carrega em si uma memória construtiva que conecta o objeto às tradições populares. É uma síntese entre o passado e o presente, onde a robustez dos currais explora novos sentidos no cotidiano doméstico.
Imagens arquivo pessoal












